Como nasceu o "Ciência a bordo"

Nos tornamos biólogos pela curiosidade e pelo fascínio sobre os fenômenos naturais. Estudamos e ensinamos conteúdos que muitas pessoas, inclusive nós, nunca tiveram ou teriam a oportunidade de testemunhar. E, assim como alguém com espírito aventureiro não fica satisfeito de apenas conhecer e contar a vida de um grande explorador, nós também não nos satisfizemos em apenas repetir o que está nos livros. Em uma tentativa de complementar aquilo que ensinamos e aprendemos nasceu o projeto "Ciência a bordo", fruto de duas paixões: a ciência e a vela.

We have become biologists by curiosity and fascination about natural phenomena. We study and teach content that many people, including us, have never had or would have the opportunity to testify. And the same way someone with an adventurous spirit would not be satisfied only knowing and telling the life of a great explorer, we do not have satisfied ouselves in just repeat what is in books. In an attempt to complement what we teach and learn in our scientific life the project "Ciência a bordo" (Science on board) was born, as a result of two passions: science and sailing.

domingo, 27 de março de 2011

Atracando no Rio Madeira


        
          Hoje passamos o dia fechando nossos compromissos dos próximos 20 dias aqui na cidade. Amanhã saímos de viagem para a região Norte do país, mais especificamente no Estado de Rondônia, onde ficaremos por quase três semanas. Lá em Rondônia existe uma floresta exuberante que faz parte de fisionomia da Floresta Amazônica. A região em que ficaremos está localizada na beira do Rio Madeira, um dos maiores e mais conhecidos afluentes do Rio Amazonas.  
            O rio Madeira é considerado uma barreira geográfica, que impede o trânsito de muitas espécies. Tal impedimento tornou a fauna residente de cada lado do rio, muito distintas entre si. Uma das evidências mais importantes de que o rio pode realmente impedir o fluxo de animais são as distinções entre as populações de primatas. Não há sequer um gênero de primata que habite as duas margens do rio. Diante disso, nós como biólogos sempre tivemos um fascínio especial pela região, e, quando apareceu a proposta de irmos coletar material biológico lá, e por isso a possibilidade de acessar uma parte dessa grande e curiosa diversidade, não hesitamos em aceitar. Esse material será depositado em grandes Museus e permanecerá no “grande acervo da humanidade” …os Museus .
        Assim, esta será a terceira vez que vamos para lá em menos de meio ano. Com as mudanças nas estações e o regime de cheias e vazantes, a paisagem se modifica em intervalos muito pequenos, o que torna cada viagem um acontecimento inédito. Além da constante novidade, um dos poucos acontecimentos rotineiros que sempre nos chama atenção é a quantidade e diversidade de formas e tamanhos de troncos de madeira que passam constantemente no rio. Por ter essa característica, de ser uma verdadeira via dos troncos, o rio ganhou o nome de Madeira. Essas madeiras são proveniente das árvores que algum dia residiram as margens do rio e que no período da cheia, em que há uma inundação natural, acabaram sendo arrastadas pela água.

          Nos despedimos aqui e deixamos nessa postagem um pequeno vídeo e algumas fotos com um pouquinho do que se “vê” por lá. Esperamos que não reste, no “futuro” (bem próximo), apenas um grande acervo num museu ou cenas de um video; que essas espécies tenham seus habitats preservados, e “Nós”, esse patrimônio natural de valor incalculável dentro do contexto da vida.

Sempre Alerta e Bons Ventos!

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Espécie da semana

       
          Nesta semana resolvemos homenagear nada mais nada menos que ele: nosso amigo Biguá. Por onde você andar, seja nas margens de um rio ou lagoa, sempre acabará encontrando um deles, ou algumas vezes, até centenas deles. São companheiros de velejadores, pescadores ou qualquer um que permaneça nas redondezas de um ambiente aquático por mais de dois minutos. São aves marinhas ou de águas internas e possuem uma única espécie no Brasil Phalacrocorax brasilianus, cujo nome popular vem do idioma indígena tupi, originalmente Mbiguá.


        Os Biguás são excelentes caçadores e por não possuírem glândula uropigial, presentes nas aves como secretoras de um óleo impermeabilizante para as penas, em contato com a água, as penas dos biguás se encharcam com facilidade, permitindo uma imersão completa e muito ágil. Desta maneira, os biguás são conhecidos por serem mergulhadores excepcionais. E, ao contrário das espécies da família dos patos e marrecos (Anatidae), que quando estão boiando na água é possível visualizar quase o corpo inteiro do indivíduo, os biguas ficam quase completamente submersos, deixando apenas a cabeça e o pescoço para fora. Por seus pescoços longos e bicos finos, muitas vezes são confundidos com cobras quando vistos de longe. Como podemos ver no vídeo, eles são muito eficientes na caça submersa!

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quinta-feira, 17 de março de 2011

Espécie da semana


     Essa semana homenageamos o pequeno, mas valente, caranguejo “Uca“, mais conhecido como “Chama-maré”. Os machos desta espécie, que muitas vezes não ultrapassam 1cm de comprimento, possuem uma das “pinças”, ou quelas, muito maior que a outra. Em função disso, essas quelas são denominadas "quela hipertrofiada". Ela permite ao animal realizar disputas territoriais com outros machos e/ou exibir-se para as fêmeas.

     Um dos comportamentos mais evidentes para atrair a fêmea é a repetição de um movimento semi-circular, com a quela maior, na frente do corpo. E é em decorrência desse comportamento que esses caranguejos receberam o nome popular de chama-marés.

    São encontrados em manguezais, praias e estuários ao longo da costa do Atlântico e possuem aproximadamente 100 espécies conhecidas pela ciência.

    Vale a pena observar esses pequenos “gladiadores” com seus gestos elegantes e suas brigas e exibições incansáveis que geralmente se concentram em milhares de indivíduos ao longo da faixa arenosa litorânea.


Sempre Alerta e Bons Ventos!

quarta-feira, 16 de março de 2011

S. O. S Cutiatá: Como nos contatar a bordo

      Uma das principais preocupações que percebemos com relação aos familiares e amigos foi quanto à “possibilidade” de “sumirmos pelos mares do Mundo” a bordo de um veleiro... Então, para tranqüilizá-los, resolvemos deixar aqui algumas instruções e procedimentos para contatar nossa embarcação quando o celular estiver sem sinal em nossos cruzeiros... rsrsr.

     Brincadeiras a parte, nós somos velejadores de primeira viagem, totalmente iniciantes e movidos, por enquanto, mais pelas emoções que pelos ventos fortes, e por isso, mais que ninguém temos como primeira preocupação central: a segurança, o socorro e o auxílio ao próximo. Existe uma série de opções de se pedir socorro ou ser contatado no caso de uma emergência em terra.
 
    Para solicitar contato com nossa embarcação, ligue de qualquer lugar do Brasil para 0800-701-2141, indicando o nome da embarcação e a região onde ela se encontra (p. ex. , veleiro "Cutiatá" na Lagoa dos Patos).  
 
     A operadora do Sistema Móvel Marítimo pede o número do seu telefone e a ligação é desfeita. A partir daí, passam a chamar a embarcação através de uma ou mais estações costeiras que tenham alcance na região onde está o barco. Ainda no exemplo acima, seria algo como: "Veleiro Cutiatá, veleiro Cutiatá, escuta Porto Alegre Rádio?". Assim que o contato for estabelecido, ligarão de volta para Você, estabelecendo a conexão entre o nosso rádio e o seu telefone. Obviamente, isso tem um custo maior que uma ligação normal...
 
    Além de funcionar como rádio telefone o rádio VHF* (Very High frequency) permite nosso barco, em situação de emergência, transmitir um aviso rápido de socorro ao acionarmos um simples botão, além disso, quando conectado ao receptor GPS, o alerta de emergência irá enviar a posição precisa da embarcação. Mas esperamos que realmente nunca tenhamos que se utilizar desse procedimento.
 
* VHF (Very High Frequency) trabalha com freqüência muito alta é utilizado para comunicação em longas distâncias em áreas abertas. Diferente do sistema UHF (Ultra High Frequency) que trabalha com freqüências ultra alta que transpassa em meio a obstáculos (concreto etc.)   

domingo, 13 de março de 2011

"Vê para além dos montes"

Sempre assistimos programas ou lemos livros de relatos de viagens ou grandes aventuras. Quando acabamos de assistir ou ler temos um de dois tipos de sensações: ou uma sensação de ter realmente vivenciado tudo aquilo que foi mostrado e descrito, ou então, uma sensação de apenas ter visto imagens bonitas e descrições detalhadas de experiências puramente visuais.

           A partir daí, nos perguntamos sempre o que determina cada uma das impressões. Qual a diferença entre as abordagens nos faz ter um desses dois tipos de experiência? Depois de um tempo discutindo isso, não foi difícil chegar a conclusão de que a diferença estava no conteúdo não só cultural, mas também científico do apresentador ou autor.

Quando dizemos científico não estamos falando do nível de instrução  do apresentador, mas do seu olhar científico-investigativo, ou seja, do grau de curiosidade da pessoa.  Esse grau de curiosidade determina o tipo de observador que cada um é. Quando essa curiosidade aguçada existe, a pessoa, até por uma necessidade pessoal, acaba por explicar de forma bem didática um acontecimento que para o outro pareceria corriqueiro.

Esse instinto é independente da formação, profissão, idade, sexo e até da capacidade intelectual de cada um. Foi pela sua incrível capacidade de observação que a bordo do Beagle Charles Darwin começou a tecer sua teoria. Quase cinco anos a bordo de uma embarcação que passou por lugares como a Patagônia,  Terra do Fogo, Nova Zelândia e Galápagos, Darwin observou alguns padrões gerais e diferenças individuais que o conduziram a sua Teoria da evolução.

Entretanto, como o próprio Darwim relatou em seus livros “Para ser um bom observador é preciso ser um bom teórico” as imagens, por si só, não serão suficientes para uma visão integral da natureza e da vida. Na atualidade podemos citar o memorável Amyr Klink que chamou atenção do mundo a bordo de seu minúsculo barco a remo IAT e, por meio de seus relatos mostrou de forma elegante a importância do meio ambiente e o descaso de muitos países, inclusive o Brasil, com seus sistemas costeiros e lacustres.      


       Terminamos essa postagem com uma frase citada por Amyr Klink em seu livro “Mar sem fim”:

"Hoje entendo o meu pai...
Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.


Sempre Alerta e Bons ventos
!



sexta-feira, 4 de março de 2011

Projetos passados e futuros

    O nosso primeiro projeto, ainda não concretizado, foi um projeto de documentário a ser realizado no Banhado do Taim, no estado do Rio Grande do Sul. Embora esse primeiro projeto não tenha uma conexão direta com a idéia do blog, foi na sua idealização que acabou surgindo muitos planos para projetos futuros, inclusive o "Ciência a bordo". 
       Ainda não começamos a buscar recursos para a realização  do documentário, mas já temos o argumento e o roteiro prontos e registrados. Assim, vamos compartilhar aqui o argumento (a idéia do documentário) da nossa primeira idealização de projeto de divulgação científica.



Documentário:Estação Taim



No extremo sul do litoral do Rio Grande do Sul está localizado um dos mais importantes santuários da vida selvagem no hemisfério Sul: a Estação Ecológica do Taim. Essa extensa planície costeira arenosa, além de abrigar várias espécies de animais residentes, abriga também uma grande variedade de aves migratórias, provenientes de outros países. Essas espécies migratórias encontram no local condições propícias de abrigo e recursos alimentares para dar continuidade às suas longas jornadas migratórias, durante todo o ano.

Entretanto, as mudanças bem demarcadas das estações ao longo do ano podem alterar as condições de recursos e transformar esse santuário em um obstáculo para a sobrevivência, tantos das aves migratórias quanto das residentes. Somado às condições adversas proporcionadas pelas variações climáticas sazonais, há ainda o impacto antrópico como as queimadas e a diminuição do nível da água, provocada pelas grandes plantações de arroz próximo ao Banhado do Taim.

A ideia do documentário é mostrar as interações e os conflitos da fauna e flora do banhado do Taim e seus ininterruptos esforços para a continuidade da vida. Por meio das imagens será explorada e documentada a dependência das espécies desse ecossistema que influencia espécies não só residentes, como outras oriundas de locais muito distantes, como os pólos terrestres.

O documentário terá uma estrutura narrativa dos acontecimentos da vida silvestre na Reserva Biológica do Banhado do Taim, RS. As alternâncias das histórias terão como fio condutor cronológico a passagem das estações do ano. Cada estação do ano será abordada por histórias separadas, mas não independentes. Essas histórias reconstituirão a estrutura da biodiversidade e das interações entre os seres vivos, cuja composição varia em cada período climático. O objetivo é revelar a rede de interações que conecta todos os seres vivos que dependem do local integral ou parcialmente, com um enfoque maior nas aves residentes e migratórias.