Como nasceu o "Ciência a bordo"

Nos tornamos biólogos pela curiosidade e pelo fascínio sobre os fenômenos naturais. Estudamos e ensinamos conteúdos que muitas pessoas, inclusive nós, nunca tiveram ou teriam a oportunidade de testemunhar. E, assim como alguém com espírito aventureiro não fica satisfeito de apenas conhecer e contar a vida de um grande explorador, nós também não nos satisfizemos em apenas repetir o que está nos livros. Em uma tentativa de complementar aquilo que ensinamos e aprendemos nasceu o projeto "Ciência a bordo", fruto de duas paixões: a ciência e a vela.

We have become biologists by curiosity and fascination about natural phenomena. We study and teach content that many people, including us, have never had or would have the opportunity to testify. And the same way someone with an adventurous spirit would not be satisfied only knowing and telling the life of a great explorer, we do not have satisfied ouselves in just repeat what is in books. In an attempt to complement what we teach and learn in our scientific life the project "Ciência a bordo" (Science on board) was born, as a result of two passions: science and sailing.

domingo, 24 de abril de 2011

"Espécie(s)" da semana

      

        Para a nossa surpresa, após a última postagem "Amazônia viva", muitas pessoas vieram nos falar
 com entusiasmo e curiosidade (e às vezes um pouco de nojo e medo!) sobre o amblipígeo da foto. Assim, decidimos nesta semana homenagear não apenas uma espécie, mas uma ordem inteira da classe
 dos aracnídeos. Só para relembrar, ordem dentro de uma classe na classificação  biológica, é como o grupo dos besouros (ordem Coleoptera) se encontra dentro do grupo maior dos insetos (classe Insecta). Considerando, então, que a maior parte das pessoas não conhece os amblipígeos (Amblypygi), achamos que informações gerais de uma ordem inteira será mais informativa. 

        A ordem Amblypigy apesar de ser pouco conhecida é muito diversa sendo composta de 128 espécies conhecidas, 13 delas encontradas no Brasil. Ao contrário do que se poderia imaginar pela aparência, os amblipígeos não possuem glândulas de veneno e são inofensivos para a maior parte dos animais maiores, como é o caso dos humanos. Assim como os demais aracnídeos, apresentam quelíceras, pedipalpos e quatro pares de pernas. As pernas anteriores (assim como nos opiliões, outra ordem desconhecida de aracnídeos) são mais compridas e sensoriais, similares a antenas em um inseto.
       Acreditamos que eles são poucos conhecidos por se encontrem na maior parte das vezes em lugares pouco visíveis e serem mais ativos à noite. Além disso, eles são exigentes quanto aos locais em que habitam, pois só são encontrados em ambientes florestais bem preservados. Eles se encontram geralmente em cavernas, no solo das florestas, dentro de cupinzeiros ou entre folhas de palmeiras, como foi o caso daquele amblipígeo da foto da postagem. Aliás, quando o vimos, demoramos um bom tempo para percebermos que eles estava ali bem na nossa cara. Na ocasião da foto, estávamos vendo uma enorme aranha caranguejeira do gênero Avicularia, e o amblipígeo estava bem na altura dos nossos olhos, porém imóvel e um pouco escondido entre as bases das folhas da palmeira. 
A cara de mau e o aspecto pouco amigável desse nosso homenageado em nada o ajuda para ser apresentado como um animal digno de defesa por qualquer propaganda de defesa ao meio ambiente. Porém, como podemos ver nas fotos não podem ser acusados de qualquer injúria a alguém, somente se um dia algum deles matar algum desavisado de susto, mas nada mais. Inclusive foi mostrado como uma iguaria em um episódio do programa "À prova de tudo" (Man vs. Wild), em que o apresentador Bear Grylls depois de comê-lo, não recomenda sua degustação a terceiros. Apesar de serem inofensivos, ao que tudo indica, o seu gosto é  muito semelhante à sua aparência. Mesmo assim é um ser maravilhoso, bizarro e merecedor de sua existência nesse pequeno grão de poeira cósmica chamado planeta Terra.   
 


      Sempre alerta e bons ventos!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Amazônia viva

     “Ali viviam animais. Ali encontravam eles seus alimentos (…)”

     
      Que nunca tenhamos que pronunciar essas palavras quando nos referirmos ao que vimos e vivenciamos por lá. Acampados no meio da floresta amazônica e nos deslocando de barco por mais de 400 km pelo Madeira, e seus afluentes, tentamos registrar tudo para compartilharmos aqui nossas histórias.

    A primeira sensação que tivemos, com toda aquela floresta exuberante, é um misto de isolamento do resto do mundo e contemplação diante de paisagens tão impressionantes.
Amblipígio artrópode aracnídeo
      Basta um olhar pouco comprometido e lá está um habitante da floresta com todo seu arsenal de forma e estratégias de sobrevivência. Tivemos a oportunidade de realizar algumas incursões noturnas em igarapés, igapós e na floresta de terra firme na companhia de vários colegas de profissão. Com a diversidade de pessoas, e por isso de bagagens científicas variadas, “descobrimos” algumas criaturas bem peculiares que, lamentavelmente, poucas pessoas terão a oportunidade de conhecer um dia.

     Não há dúvidas que voltamos diferentes a cada expedição, um mundo maior e mais complexo se apresenta a cada instante e expõe toda nossa ignorância perante algo tão sublime, grandioso e bizarro. Todos os nossos sentidos são testados e se o Cosmo nos é indiferente a Natureza, não. A cada momento somos lembrados que por lá somos apenas mais um recurso, seja para dípteros (moscas e mosquitos) hematófagos, ácaros, carrapatos, abelhas lambedoras de olhos e borboletas em busca do sal de nosso suor.
Theobroma grandiflorum (Cupuaçu)
     Os machos de algumas borboletas necessitam de sal para maturarem suas gônadas e poderem se reproduzir. Com todo o calor e umidade que estamos expostos no trópico somos uma fonte quase inesgotável de tal recurso.
       Encontramos desde pequenos peixes que sobrevivem em pequenas poças temporárias, até aranhas caranguejeiras com mais de 30 cm de comprimento, minhocas com mais de um metro de comprimento e formas minúsculas, mas não menos belas, de fungos no solo da floresta.   Uma das imagens mais poéticas que registramos foi de um cupuaçu com todas suas sementes germinando no solo úmido e escuro da floresta.

      Tivemos ainda a oportunidade de coletar, com molde de gesso, várias pegadas “fresquinhas”, sendo uma delas, de uma onça pintada adulta que passou no mesmo local poucas horas antes da gente.  
Terminamos aqui essa postagem para que as imagens falem o restante por nós.

Um diplopodo
Avicularia juruensis












Lepidoptera atraída pelo suor

Fungo











Minhocuçu, oligoqueto que pode atingir mais de 60cm
Molde em gesso de pegada de onça
  






Macho de Theraphosa blondi (foto de Celso Varela Rios)
 



Sempre Alerta e Bons Ventos!