Como nasceu o "Ciência a bordo"

Nos tornamos biólogos pela curiosidade e pelo fascínio sobre os fenômenos naturais. Estudamos e ensinamos conteúdos que muitas pessoas, inclusive nós, nunca tiveram ou teriam a oportunidade de testemunhar. E, assim como alguém com espírito aventureiro não fica satisfeito de apenas conhecer e contar a vida de um grande explorador, nós também não nos satisfizemos em apenas repetir o que está nos livros. Em uma tentativa de complementar aquilo que ensinamos e aprendemos nasceu o projeto "Ciência a bordo", fruto de duas paixões: a ciência e a vela.

We have become biologists by curiosity and fascination about natural phenomena. We study and teach content that many people, including us, have never had or would have the opportunity to testify. And the same way someone with an adventurous spirit would not be satisfied only knowing and telling the life of a great explorer, we do not have satisfied ouselves in just repeat what is in books. In an attempt to complement what we teach and learn in our scientific life the project "Ciência a bordo" (Science on board) was born, as a result of two passions: science and sailing.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Se estiver escrito é verdade… essa é a máxima!

        Na última edição da Super Interessante # 299 dez/2011, nos deparamos com um título bem conhecido por todos nós: Guia verde politicamente incorreto.          Não queremos ser catastróficos, mas estamos passando por um período importante do ponto de vista ambiental com temas complexos como a construção de hidrelétricas na planície amazônica e a aprovação do novo código florestal. Essas são ações importantes na nossa história como civilização e que determinam o futuro de outras gerações.
        Alguns desses temas estão abordados nessa edição da Super Interessante e, por isso, decidimos comprar a revista para saber o que “eles” pensam sobre o assunto. Como se trata de uma revista de divulgação científica bem conhecida e com uma tiragem de 362 366 exemplares, não temos dúvidas sobre o poder de formação de opinião desse veículo. Porém, na reportagem de capa: Guia Verde politicamente incorreto encontramos um texto repleto de erros conceituais e incoerências do ponto de vista da conservação. Ficamos pasmos com o que encontramos lá.
        A primeira parte do texto fala sobre a indústria do papel e apresenta um cálculo sobre o consumo e produção de CO2 (gás responsabilizado pelo efeito estufa). O texto com o título de “Falsos Vilões” argumenta que as florestas de Pinus e  Eucaliptus, criticadas por muito ambientalistas, são na realidade benéficas ao meio ambiente pois absorvem muito mais CO2 do que libera com a produção do papel. O texto fala então do seqüestro de carbono em florestas implantadas. Sim, as florestas são estoques vivos de carbono e a manutenção desse equilíbrio natural além da redução do carbono emitido por atividades humanas tem relação direta com a permanência de florestas em pé. Mas, não basta plantar “nova floresta” é preciso saber de que tipo de floresta estamos falando. Não podemos esquecer que a floresta, seja ela qual for, é um sistema complexo, com muitos organismos interagindo de forma específica. Assim, ao substituir uma floresta nativa por uma de Pinus ou Eucaliptus não são somente as espécies de árvores que são substituídas, que aliás no caso do Brasil é a substituição de centenas por uma, mas estão sendo substituídas também as espécies de animais vertebrados e invertebrados em geral que se alimentam e se abrigam nas árvores nativas, e também das  bactérias e fungos presentes no solo, que determinam a fertilidade da terra.
        O texto então além de não falar da perda de biodiversidade que ocorre um sistema homogêneo como uma plantação eucalipto, não menciona dois dos aspectos mais danosos desses tipos cultivos que é a quantidade de formicida que se coloca por hectare numa floresta implantada, e o potencial invasor do Pinus que pode se alastrar por florestas nativas e manter esse ciclo de perda de diversidade. Assim, manter a flora nativa com sua complexidade de fauna, flora e microbiota é muito diferente de substituí-la por outra floresta comercial. Ou seja, é imperativo que se mude o olhar sobre o que é uma floresta, deixando de associá-la a plantio de Pinus ou Eucalipto. Somente uma vegetação natural permanentemente preservada, como a Mata Atlântica, Amazônia ou os outros tantos biomas que temos no Brasil pode garantir uma fixação de carbono em longo prazo.
         O autor termina esse tema com a seguinte frase: “E o melhor para a sua consciência é que o papel utilizado no Brasil não vem do desmatamento de mogno na Amazônia, mas da colheita de eucalipto e pinus de florestas plantadas no sul do país”. Nesse caso, o autor poderia ter dito que o papel também não vem das sequóias gigantes da América do norte ou ainda de figueiras centenárias. Essa comparação e realmente sem sentido e nos dá uma falsa impressão que estamos fazendo algo muito bom.
         Não temos dúvidas sobre a necessidade das florestas implantadas nem da necessidade de produzir papel etc. Mas temos que, no mínimo, aceitar que estamos pagando caro por tal recurso e que estamos interferindo de forma irresponsável sobre os ecossistemas, ou seja, devemos é assumir que estamos alterando SIM e, talvez, de forma irreversível a estrutura de nossas paisagens naturais. Aceitar essa idéia é o primeiro passo para mudança e, não colocar “panos quentes” achando que tudo está bem, porque definitivamente não está!
         Seguimos nossa leitura... Mais adiante encontramos um pequeno texto com o seguinte título: “Pobres Pássaros” nesse texto, o autor fala sobre o impacto da produção de energia sobre as “aves”. Primeiramente, existe um equívoco, por parte do autor, sobre o que é uma ave e o que é um pássaro. Nem toda ave é um pássaro. Esse detalhe conceitual pode parecer insignificante, mas é ele quem vai esclarecer o impacto que de fato estamos exercendo do ponto de vista da conservação.
         Explico, podemos ler a seguinte frase no texto: “Toda vez que há derramamento de petróleo, os jornais ficam repletos de imagens aterrorizantes de pássaros cobertos de óleo. Mas a verdade é que a produção de energia não é a maior vilã das aves – fazemos coisas muito piores”.

Nesse ponto do texto o autor expõe um quadro com os hábitos humanos e seus respectivos números, que matam mais pássaros do que o derramamento de óleo.

Quadro encontrado na revista mostrando a morte de aves por ano com suas categorias:

O primeiro da lista é o vazamento de óleo da Bristish Petroleum. 6.147 mil

Geradores de energia eólica 270 mil

Gatos domésticos 10 milhões

Carros comuns 80 milhões

Fios elétricos 130 milhões

Choques em prédios 550 milhões


        Ok! Os números são impressionantes, mas são números!
        As 6.147 aves mortas por óleo certamente são pingüins, albatrozes, andorinhas do mar, atobas, etc. Ou seja, são aves marinhas que fazem longas rotas migratórias, com funções ecológicas importantes e que estão distribuídas de forma peculiar no planeta sendo muitas espécies endêmicas e outras ameaçadas de extinção.
         Mas e os outros números? As mais de 700 milhões de “aves” mortas por gatos, carros etc.?
         Bom, é agora que a coisa pega. A maior parte das categorias desses casos são de contexto urbano, ou seja, não são pingüins ou aves marinhas raras, mas necessariamente de aves urbanas, principalmente pombas e o pardal. Em ambos os casos, trata-se de espécies exóticas, o primeiro grupo, as pombas, é uma herança trazida por nossas caravelas da época do descobrimento e a segunda, referente a uma única espécie Passer domesticus introduzida mais recentemente vindo também da Europa, e que se alastrou rapidamente e tornando-se um potencial competidor das espécies nativas.
         Lamentavelmente temos uma visão romântica de pombas nas praças e é possível ver essa imagem em qualquer estatua de São Francisco de Assis, como representante de todos os animais sobre a Terra. A verdade é que a pomba é um vetor de várias doenças e um problema de saúde pública, cujo controle e extermínio é adotado por algumas cidades brasileiras. Já o nosso “amigo” pardal é uma espécie bioinvasora que apresentas ampla distribuição estando presente em quase todos os continentes. Atualmente é a espécie de ave com maior distribuição geográfica.          
         Bom, o restante da matéria é recheada de informações superficiais e incompletas, com certos e errados absolutos, com uma falsa visão relativa. Não precisa ser um biólogo, mas apenas um leitor crítico para que notar as incoerências e imparcialidades da revista como um todo.  Ficamos muito mal impressionados com a qualidade dessa edição da revista não só pelo conteúdo, mas também pelo formato que tenta ter uma linguagem moderna e ágil, mas que resulta em matérias superficiais e sem visão crítica.

       Fica aqui uma dica para os professores!!!
       
       Será que perdemos a capacidade de fazermos uma leitura crítica e questionar tudo que estiver “impresso”?

        Sempre Alerta e Bons Ventos!

Imagem de São Francisco de Assis,
"o amigo dos animais" com uma pomba no ombro
Vitral de Igreja:
Pomba como um símbolo que
permeia nosso cotidiano

2 comentários:

  1. Sanhudo, Camila
    Parabéns pelo artigo.
    Pelo jeito está na moda, soltarem "matérias" como esta, que ofendem nossa miníma capacidade crítica. Recentemente, a revista Veja, soltou uma destas perólas (não li, não perco tempo com esta revistinha sem vergonha), ao defender o uso de agrotóxicos!

    Boa viagem para vocês, espero a oportunidade de ve-los novamente.

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    1. Saudaçoes meu Chefe !

      Obrigado por prestigiar nossa postagem. Nós continuamos remando contra maré rsrs

      Sempre Alerta e Bons Ventos !!

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