Como nasceu o "Ciência a bordo"

Nos tornamos biólogos pela curiosidade e pelo fascínio sobre os fenômenos naturais. Estudamos e ensinamos conteúdos que muitas pessoas, inclusive nós, nunca tiveram ou teriam a oportunidade de testemunhar. E, assim como alguém com espírito aventureiro não fica satisfeito de apenas conhecer e contar a vida de um grande explorador, nós também não nos satisfizemos em apenas repetir o que está nos livros. Em uma tentativa de complementar aquilo que ensinamos e aprendemos nasceu o projeto "Ciência a bordo", fruto de duas paixões: a ciência e a vela.

We have become biologists by curiosity and fascination about natural phenomena. We study and teach content that many people, including us, have never had or would have the opportunity to testify. And the same way someone with an adventurous spirit would not be satisfied only knowing and telling the life of a great explorer, we do not have satisfied ouselves in just repeat what is in books. In an attempt to complement what we teach and learn in our scientific life the project "Ciência a bordo" (Science on board) was born, as a result of two passions: science and sailing.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Expedição Chico-Faxina (Parte I)



O que encontramos por lá!

Ao longo desse um ano de projeto, planejando e executando os planos, conhecemos muitas pessoas especiais. Essas pessoas sempre nos injetaram aquela dose de ânimo necessária a qualquer empreitada. Neste momento, planejamos e executamos parte da expedição Chico-Faxina. Digo planejando ainda, porque não realizamos o percurso todo. Nesse planejamento, a gente se preocupou desde o trajeto que fosse mais interessante até a quantidade de comida a ser levada. Com o trajeto definido, podemos identificar quais os potenciais exploratórios de cada ponto, seja na parte biológica, física, social ou histórica. Assim, quando decidimos que a Ilha Francisco Manoel seria um dos pontos de exploração, fomos pesquisar sobre o local.
Planejamento
Como escrito na postagem anterior, descobrimos que na Ilha existe um sítio arqueológico Guarani, cujo material coletado está depositado atualmente no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo (Programa de Arqueologia Urbana). Ficamos super entusiasmados com a idéia de que iríamos visitar uma Ilha onde - no período pré-colonial – era habitada por tribos indígenas. A partir daí, ficamos curiosos para saber o que tinha sido encontrado nas coletas e a que conclusões os arqueólogos tinham chegado sobre os costumes dos antigos habitantes de nossa pré-historia.
Entramos, então, em contato com o Museu e fomos até lá fazer uma visita.
Arqueólogos Fernanda e Marcus
Apesar de ser algo óbvio, sempre nos esquecemos que por trás das instituições, existem pessoas. E foi para nossa agradável surpresa que ao chegar no museu, conhecemos dois arqueólogos que não só nos deram as informações que queríamos sobre os registros da Ilha Chico Manoel, como também nos permitiu conhecer suas personalidades e interesses na arqueologia e na vida acadêmica.
Machadinho
Mas voltando para as escavações realizadas na Ilha Chico Manoel; as pesquisas arqueológicas encontram uma fogueira e grandes quantidades de material cerâmico e lítico. Tais registros são provenientes de uma aldeia pré-colonial Guarani, datada com tendo mais de 600 anos pelo método de C14. Além desse material também foram encontrados ossos dos seguintes animais;

Felicidae (gato-do-mato)
Tapirus terrestris (anta)
Tayassu pecari (queixada)
Blastocerus dichotomus (cervo)
Cervidae (veado)
Myocastor coypus (ratão-do-banhado)
Phalocrocorax brasilianus (biguá)
Phynops sp. (cágado)

Sítio arqueológico (foto: M. Joaquim Felizardo)
Por fim, também foi encontrado um crânio humano com marcas de luta. Tal artefato levantou a hipótese de que a tribo que habitava a Ilha pudesse ter praticado a antropofagia, comum entre o grupo tupi-guarani. A antropofagia ritual ocorria quando a tribo matava o inimigo em guerras. Acreditava-se que ao se alimentar do inimigo adquiriria-se também sua força.
Entrada para o local onde fora escavado


Bom, todas essas informações dos registros arqueólogicos da Ilha Chico Manoel foi a base da nossa experiência e leitura do que encontramos por lá. Ficamos imaginando o que mais poderia ser descoberto, explorado, divulgado e compartilhado por outras pessoas que estivessem interessadas em realizar a mesma experiência com outros pontos de vistas, menos limitados que o nosso olhar...Como seria uma aula de história, geografia ou filosofia com esse belo “pano de fundo’? Como seria proveitoso um passeio de final de semana em família...
Local da Ilha onde fora escavado
O contato com os arqueólogos Fernanda Tocchetto e Marcus Vinicius, e a visualização dos artefatos indígenas de tribos que viveram na Ilha há mais de 600 anos, fez com que a gente passasse a encarar a viagem de uma maneira diferente. E é isso o que a gente acha que o conhecimento científico de modo geral faz com as pessoas, o mundo se torna um objeto de  constante estímulo à curiosidade e ao raciocínio. Não queremos apenas saber que as coisas existem, mas também o como e o porquê elas existem.
Objetos líticos (foto: M. Joaquim Felizardo)
Por exemplo, apesar de nós dois sermos biólogos, quando estávamos na floresta Amazônica e um amigo nosso, o Filipe - que é herpetólogo (dedicado ao estudo dos répteis e anfíbios) – estava presente, a floresta ficava diferente. Estando com ele, a gente passava a procurar os "bichos" dele, a atenção aos barulhos, às poças de água, à busca visual noturna aguçava sentidos que no dia-a-dia ( no caso, noite-a-noite). A descoberta de algo novo, e a possibilidade de ter alguém ali do lado que pudesse tirar nossas dúvidas tornava toda floresta uma fonte inesgotável de estímulos a curiosidade.  
Ninho de Acromyrmex (quenquém)

Acho que no final das contas é essa a vivência que nós queremos que o projeto “Ciência a Bordo” promova e estimule nas pessoas e é essa a vivência também que queremos colocar nas salas de aulas. É muito frustrante pensar que a maioria de nós estamos tão presos ao cotidiano de trabalho e cidade que nem sabemos como buscar aquilo que nos estimula, ou comove. É comum alguém saber exatamente o que irá ver em uma viagem de turismo e voltar insatisfeito por não ter tido grandes surpresas. Geralmente essas viagens começam pelo Google, tendo contato com fotos de viagem e lugares bonitos. Porém, olhar não é conhecer, é só algo para contar para os amigos. Se comover com alguma coisa é algo raro, uma experiência íntima de satisfação inigualável e que estamos cada vez mais deixando sob a responsabilidade de outros. Um carro novo, uma casa nova, uma roupa ou celular da moda pode ser algo legal, mas não agrega valor à nossa vivência e experiência de vida.
Volta na Ilha


Queremos agradecer aos amigos Fernando do Veleiro Planeta Água e ao Paulo do Clube Náutico Veleiros do Sul, que não pouparam esforços em conseguir nossa estadia na Ilha do Chico Manuel. Aos novos amigos do “Ciência a bordo” os arqueólogos do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, que além de nos brindar com muitas informações sobre os Guaranis, realizam um belíssimo trabalho por lá, vale a pena fazer uma visita. Ao casal de canoístas Leonardo Esch e Tiane que além de nos dar muitas dicas sobre técnicas de canoísmo, nos emprestaram parte do material de segurança. Ao Filipe, nosso herpetólogo de bolso. E, queremos agradecer também a família Hirata que está sempre nos injetando aquela dose de ânimo, mencionada no começo desta postagem, e que está sempre em nossas lembranças durante as travessias. Deixamos a todos nosso muito obrigado.
Obrigado!

Chegada







O percurso...
O percurso...




Um pouco sobre a Ilha Chico Manoel

A ilha Francisco Manoel, fica no lago Guaíba e apresenta aproximadamente 800m na maior dimensão, a ilha é sub-sede do Veleiros do Sul e está a 12 milhas náuticas do clube, entre Belém Novo e Lami, no município de Porto Alegre. Molhes de pedra, trapiches, algumas casas, mata nativa e praias. A flora e a fauna quase intocadas com rica avifauna, muitas orquídeas, aranhas caranguejeiras e figueiras centenárias. É importante salientar que a Ilha está sob os cuidados do Clube Náutico Veleiros do Sul, e qualquer visitação deve ser solicitada com antecedência no próprio Clube em Porto Alegre.

Pôr-do-Sol na Chico Manoel
Dia!











Lista de equipamentos utilizados nessa expedição

Para travessia
  • Caiaque oceânico Sioux
  • Remo
  • Sacos estanques de diversos tamanhos
Para localização
  • GPS Garmin etrex legend (com pilhas reserva)
  • Spot Satellite GPS Messenger
  • Mapa náutico (impermeável) nem tanto depois de algumas horas na água
  • Carta náutica (de Itapuã a Porto Alegre) n 2111
  • 2 bússolas (p/caiaque + mapas)
Para segurança
  • Rádio VHF
  • Cabo de resgate
  • Fitas de segurança
  • Caixa de primeiros socorros * (veja os itens )
  • Colete flutuador + apito
  • Kit de reparos de caiaque
  • Luz de emergência (navegação)
  • Radio AM/FM/SW (meteorologia)
  • Óculos escuros
  • Luvas para remar
Para iluminação
  • Lanterna de cabeça (mais pilhas reservas)
  • Lampião + camisinha+ adaptador + gás
Para cozinha
  • Fogareiro
  • 1,5mL de benzina
  • Isqueiro
  • Panelas+pegador
  • Prato+caneca+talheres
  • Kit de limpeza de louças
Ferramentas
  • Alicate com diversas chaves etc
  • Cabos solteiros
  • Carregador solar
  • “Canudo purificador” de água
  • Pederneira
* Item da caixa de primeiros socorros
  • Algodão
  • Gaze
  • Band_aid
  • Esparadrapo
  • Antiséptico líquido
  • Álcool 70%
  • Antiséptico pó
  • Permanganato de potássio
  • Gelol
  • Hipogloss
  • Creme minancora
  • Vodol creme
  • Clor-in (pastilhas purificadora de água)
  • Fenergam creme
  • Dorflex
  • Tylenol
  • Termômetro
  • Sal de frutas
  • Epocler
  • Buscopan
  • Creme para queimaduras
Mais...
  • Kit de pesca
  • Cobertor térmico
  • Protetor solar
  • Material de higiene pessoal
  • Caderno de campo
  • Roupas
  • Mantimentos para uma semana

Sim, tudo isso coube no caiaque... E ainda tinha espaço!


Para saber mais sobre as pesquisas arqueológicas realizadas na Chico Manuel:

Leia -
Gaulier, P. L. Ocupação pré-histórica Guarani no município de Porto Alegre RS Considerações preliminares e primeira datação do sitio arqueológico [RS-71-C] da Ilha Chico Manoel
Revista de Arqueologia 14-15:57-73. 2001-2002

Visite - 
Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Rua João Alfredo, 582 - Cidade Baixa - CEP 90050-230 

Telefones: 3289.8096 e 3228.2788
E-mail: museu@smc.prefpoa.com.br


Funcionamento

De terças a sextas-feiras: das 9h às 11h30min e das 14h às 17h30min
Quintas-feiras: turno da noite, para instituições de período noturno, mediante agendamento


Para saber mais sobre canoísmo:
http://leonardoesch.blogspot.com.br/
http://grupoosorio.blogspot.com.br/


Um sleestak!

Percurso
Café da manhã!

Chegando

Barraca do caiaque (Ilha Chico Manoel)

Barraca do remador!

Pernoite na Marina do Lessa

Acampamento na Marina do Lessa

Amanhecer no Lessa

Tempestade à vista!

Passaporte para a Ilha Chico Manoel

Material arqueológico da Chico Manoel (foto: M. Joaquim Felizardo)

Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

Pedaço de Pote de Cerâmica indígena do sítio arqueológico da Chico Manoel

Pedaço de vaso de cerâmica

Borda de pote de cerâmica