Como nasceu o "Ciência a bordo"

Nos tornamos biólogos pela curiosidade e pelo fascínio sobre os fenômenos naturais. Estudamos e ensinamos conteúdos que muitas pessoas, inclusive nós, nunca tiveram ou teriam a oportunidade de testemunhar. E, assim como alguém com espírito aventureiro não fica satisfeito de apenas conhecer e contar a vida de um grande explorador, nós também não nos satisfizemos em apenas repetir o que está nos livros. Em uma tentativa de complementar aquilo que ensinamos e aprendemos nasceu o projeto "Ciência a bordo", fruto de duas paixões: a ciência e a vela.

We have become biologists by curiosity and fascination about natural phenomena. We study and teach content that many people, including us, have never had or would have the opportunity to testify. And the same way someone with an adventurous spirit would not be satisfied only knowing and telling the life of a great explorer, we do not have satisfied ouselves in just repeat what is in books. In an attempt to complement what we teach and learn in our scientific life the project "Ciência a bordo" (Science on board) was born, as a result of two passions: science and sailing.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alfabetização científica, sim! Parte II - Ceticismo (...) ou a Arte de questionar tudo.


          "A ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos.”
                                                                   (Carl Sagan) 

A Ciência, e um sentido amplo, é mais do que o simples acúmulo de conhecimento sobre um determinado assunto. A principal diferença da ciência em relação às outras Artes é a forma cética de como ela olha para os fenômenos naturais. Além disso, a Ciência – como uma forma de pensar - leva em conta o princípio da falibilidade humana assumindo que o conhecimento não é absoluto e que não existem verdades absolutas.

É esse ceticismo que permite o examinador avaliar e questionar o que é dito como “verdade”, de maneira neutra, independente do quanto isso possa afetar suas opiniões pessoais e sentimentos. Ser cético não é duvidar de tudo, em uma postura de teimosia; é procurar e avaliar evidências que permitam aceitar ou não um argumento.

Esse posicionamento cético, portanto, nos permite julgar de forma racional o que é colocado como verdade apenas sob argumentos de autoridade, profecia, opiniões e valores morais, os quais são em geral escassos de evidências claras e imparciais (não manipuladas). Essa abordagem pode parecer dura demais e nem sempre nos traz conforto emocional, mas é a única maneira de chegarmos perto dos fatos e o melhor antídoto disponível contra os charlatões que atuam em diferentes áreas da vida em civilização - seja na política, religião e até mesmo na ciência

Sempre Alerta e Bons Ventos!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Alfabetização científica, sim!


“No futuro, não muito distante, haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem preparadas. Não haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo inteiro e isso terá graves conseqüências. Em especial, a educação científica é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um dos piores problemas que enfrentamos atualmente, causador de muitas desgraças. No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que "o futuro será uma corrida entre a educação e a catástrofe". No momento, acho que estamos perdendo a corrida”.   
                                                                                               Carl Sagan


       Se existe uma linguagem universal sem limites de território, religião, raça ou qualquer outro tipo de segregação, é a linguagem científica. O pensamento científico está à disposição de qualquer pessoa independente da cor de sua pele, seu sexo ou até mesmo de sua vontade. Quando criança, utilizamos dessa ferramenta de maneira descompromissada e é através dela que percebemos e interpretamos o mundo ao nosso redor. No entanto, essa capacidade de pensar cientificamente é muitas vezes temida e até propositalmente ignorada.

        Não conseguimos pensar em um só assunto em toda nossa história como civilização em que o raciocínio lógico-científico não seja, no mínimo, imprescindível. Porém, a sua atuação está longe de ser bem vista ou pior, entendida. Que dirá ser levada em conta nas tomadas de decisões de interesse coletivo, cujas diretrizes muitas vezes estão focadas em interesses individuais e/ou emocionais, ainda que os argumentos científicos estejam bem fundamentados. Perguntamo-nos, então, por que temos tanto receio dessa ferramenta? Ao que ela nos expõe? Porque a ciência é só para cientistas?

        Embora não possamos responder a essas questões, nesse ensaio tentaremos mostrar alguns motivos que levam a grande maioria das pessoas a ignorarem a importância e a relevância desse tema não só em suas vidas, mas também no panorama nacional e mundial.   

        Obviamente, nosso problema passa pelo sistema educacional.  Porém, ele está longe de ser a origem do nosso descaso com a alfabetização científica. Alguns estudos demonstraram que a forma como descobrimos e percebemos o mundo, quando criança, se dá através de um método muito parecido com o científico, cuja lógica se fundamenta primordialmente na observação, hipotetização e experimentação. Se realmente o pensamento científico já está presente nos nossos primeiros anos de infância, quando estamos descobrindo o mundo, curiosos com tudo e com todos, por que, então ele se torna tão distante, e até mesmo pernicioso, para a maioria das pessoas na fase adulta?

       Vamos imaginar uma situação hipotética: uma criança descobrindo o “universo” das pequenas criaturas de seis ou oito pernas nos fundos do quintal de sua casa. Qual a probabilidade de uma mãe ou qualquer outro responsável, que assista a esse episódio, ficar alarmada com a possibilidade desta “descoberta” acabar em um acidente. E, nesse momento, desprender um GRITO alarmante de - “Não toca aí, é perigoso, está cheio de bichos”. Pronto! Uma ordem com uma argumentação lógica (e portanto aceitável do ponto de vista da criança). E a mensagem que ficará gravada é a de que bicho é uma coisa ruim; e o medo e a cautela passarão a sobrepor-se à curiosidade e à satisfação de uma descoberta.

        Ainda que grandes curiosidades pelos mistérios da vida continuem reverberando na mente infantil, uma vez que pais e professores não possam responder por uma via racional, elas passarão a ser respondidas por alguma doutrina religiosa. Tais doutrinas são colocadas como verdades absolutas aliadas a superstições praticadas em locais de convivência de qualquer criança civilizada, ou seja, em casa e/ou na escola.  Assim, questões existenciais passam a serem alocadas como questões espirituais, o que é lamentável, pois bastaria apresentar o sentido religioso e não de uma religião para que o pensamento científico e questionador continuassem em pleno gozo nas crianças, que são naturalmente atraídas pelas descobertas.

        Mas continuemos com nossa situação hipotética e nosso personagem fictício chegando à vida adulta. Nesse momento, a criança já se tornou um adolescente, prestes a terminar o ensino médio. Se dissemos antes que o sistema de ensino não é a origem do desestímulo ao raciocínio lógico-científico, ela é definitivamente o grand finale nesse processo.  Isso porque, durante esse nosso intervalo de tempo o adolescente se vê em preparação, ou melhor, “em treinamento” para uma das situações mais decisivas de sua vida– O Vestibular. Sim! Tudo o que lhe foi ensinado na escola tinha como único objetivo atingir a meta de passar por uma prova de vestibular. Ou seja, todos os fundamentos da biologia, física, matemática, química, geografia e história só têm um sentido único em sua existência, uma prova. Até porque as questões “mais” profundas, de cunho existenciais já foram todas respondidas por alguma religião, inclusive para depois de sua morte!

       Dentro desse panorama ainda temos um arsenal intermitente reforçando o papel secundário da ciência em sua vida. São as infinitas propagandas de “cientistas” fantasiados de jalecos brancos e com cara de louco varrido que apresentam desde sabão em pó com bolinhas de oxigênio, creme dental com clorofila até xampu com DNA que se adere aos fios de cabelos. Sim, não posso deixar de comentar o meu “preferido” – ETANOL, o combustível “verde”. Parece até que estamos fazendo um favor ao mundo ao utilizarmos etanol nos nossos carros!  Isso porque, está tudo lá, eles, os “cientistas” falaram. Nesses casos é muito conveniente retomar o valor da ciência e da palavra dos “experts”. Essa ciência e pensamento científico exclusivo dos cientistas tiram a responsabilidade dos cidadãos comuns de pensar e criticar, já que outros o estão fazendo por ele. Assim, não precisamos mais pensar ou questionar tais apelações publicitárias. Seria até engraçado se não fosse tão perigoso.


       Questões importantes como: matriz energética do país, sistemas de produção agrícola, preservação do ambiente natural e o uso de novas tecnologias são, provavelmente, assuntos herméticos ou densos demais para o nosso hipotético cidadão que já alcançou a vida adulta, e logo, será um pai de família ensinando tudo que aprendeu para seus descendentes...

Mas neste caso, eles “os cientistas” devem saber o que fazer, né?